Trigo Inverno 2025: solo corrigido é base da cultura exigente

Junho marca o ápice do plantio de trigo no Sul do Brasil, principal cultura de inverno do país. A safra 2025/26 está projetada em 7,7-8,2 milhões de toneladas, mas há sinais de que produtores estão recuando na área plantada devido a restrições de crédito e preços pressionados pelo trigo argentino.
A Emater/RS divulgou em 16 de junho que a área estimada para trigo no Rio Grande do Sul será 10% menor que 2024: apenas 1,19 milhão ha (vs 1,33 milhão ha anterior). As razões são múltiplas:
Endividamento dos produtores após safras difíceis Acesso restrito ao crédito rural Concorrência da canola (área +37,4%, preços melhores) Argentina prorrogou redução de tarifas de exportação (9,5% até 2026)
Paraná projeta 905 mil ha (-2,2% vs estimativa anterior). Mesmo com área menor, a produtividade esperada é recorde: 3.066 kg/ha (+18,9%), refletindo clima favorável no plantio e… solo melhor preparado.
Por que trigo é tão exigente em solo?
O trigo é uma cultura extremamente sensível a acidez do solo e desequilíbrios nutricionais. Especialistas recomendam pH ideal entre 6,0 e 6,5 – faixa estreita que exige correção precisa.
As exigências do trigo são técnicas e econômicas:
Qualidade industrial: Trigo para panificação requer proteína acima de 12-13%. Solo ácido compromete absorção de nitrogênio e enxofre, reduzindo proteína para 9-10% (desclassificação para ração animal, perda de 40-50% do valor)
Sistema radicular profundo: Trigo inverno enfrenta períodos de déficit hídrico (agosto-setembro). Raízes precisam alcançar 80-120cm de profundidade. Em solo ácido, raízes param em 30-40cm (quebra de produtividade)
Ciclo longo sensível: 6-8 meses do plantio à colheita. Qualquer estresse nutricional em qualquer fase compromete produtividade final. Solo equilibrado = nutrição constante
Sensibilidade a alumínio: pH abaixo de 5,5 libera alumínio tóxico que “queima” raízes e impede crescimento. Trigo é mais sensível que soja ou milho a este problema
Cálcio estrutural: Grãos de trigo com alto teor de cálcio têm melhor qualidade para panificação (estrutura de glúten). Calcário dolomítico fornece cálcio e magnésio ideais
Realidade do campo em junho/2025
Produtores que fizeram calagem em março-maio estão plantando trigo com confiança. Solo pH 6,2-6,5 garante:
Emergência uniforme em 7-10 dias Perfilhamento vigoroso (3-5 perfilhos por planta) Resistência a geadas na fase vegetativa Aproveitamento pleno de adubação nitrogenada Qualidade industrial assegurada (proteína 13-14%)
Produtores que não fizeram calagem enfrentam:
Emergência desuniforme e falhas no stand Perfilhamento fraco (1-2 perfilhos por planta) Amarelecimento precoce das folhas Necessidade de 30-40% mais adubo nitrogenado Risco de desclassificação para ração
Trigo como cultura de rotação estratégica
Além da renda da colheita, o trigo é fundamental para a sustentabilidade do sistema produtivo:
Cobertura de solo: Palhada de trigo protege solo no inverno, reduzindo erosão e evaporação
Quebra de ciclo de pragas: Trigo não hospeda pragas da soja e do milho, interrompendo ciclos
Manejo de daninhas: Efeito alelopático da palhada inibe buva, capim-amargoso e outras invasoras resistentes
Melhoria da estrutura: Sistema radicular do trigo descompacta solo e cria macroporos para culturas de verão
Fixação de carbono: Trigo em solo corrigido fixa mais carbono que culturas de cobertura não comerciais
Mas todos esses benefícios dependem de uma lavoura saudável e produtiva – o que só acontece em solo bem corrigido.
Perspectiva Econômica
Com área menor mas produtividade maior, espera-se produção de 7,7-8,2 milhões ton. Consumo interno é ~12 milhões ton/ano, então Brasil continuará importando 3,5-4 milhões ton (principalmente Argentina).
Preços pressionados pela oferta argentina, mas demanda firme garante sustentação. Produtores com lavouras de alta qualidade (proteína 13%+) conseguirão prêmios de R$ 5-8/sc.